Psicomotricidade é Ciência?

Em primeiro lugar vamos refletir um pouco sobre porque em nossa cultura ocidental é tão importante dizer que essa ou aquela área de conhecimento possui o status de Ciência.

Historicamente falando houve vários momentos da humanidade que, podemos dizer, predominou certa maneira de ver o mundo e consequentemente de pensá-lo.

Nem sempre essa maneira de ver o mundo foi baseada num pensamento estritamente racional, dirigido, lógico e reflexivo.

Podemos destacar uma época primordial em que se via o mundo de uma maneira integrada onde não se percebia o mundo como partes separadas, mas um mundo que era sentido como uma “participação mística”, ou seja, não se via e não se sentia separações entre o homem, o espírito da natureza e de Deus. Tudo era sentido e vivenciado naturalmente e encarado simplesmente como a vida tinha que ser e pronto.

Aqui havia uma importante relação holística com o Todo, mas ao mesmo tempo, havia uma indiferenciação entre o indivíduo e o mundo.

Me permitam imaginar que a característica holística era uma percepção importante na qual deveria se desenvolver a diferenciação, resultando numa visão holística e diferenciada, mas não foi assim que acabou por se desenrolar a história da nossa humanidade.

Houve uma época que as teologias foram se desenvolvendo e criaram sistemas lógicos e racionais do que, antes, era sentido e vivido naturalmente.

Assim foi-se criando teorias ou teologias que explicavam e ditavam regras sobre a relação holística que havia em tempos anteriores, e o que antes era sentido e vivido naturalmente, passou a ser pensado e organizado racionalmente, limitando assim uma relação integral inicial para uma relação intelectual.

Mas muitos pensadores não gostaram dessa “novidade”, pois esta nova maneira de ver o mundo acabou por afastar o homem de Deus, da natureza e de outros homens, criando regras e dogmas para que essa relação fossem possível e “legítima”, concentrando o poder de pensar e de agir no mundo aos detentores do conhecimento teológico e aos auto-empossados intermediários entre a relação do homem com Deus.

Então pensadores formadores de opinião de toda uma época, como Francis Bacon, Renné Descartes, Galileo Galilei, Isaac Newton, por exemplo, chegaram a postular que para que um conhecimento fosse considerado verdadeiro e legítimo, deveria ser comprovado com repetidas experiências e com a matemática. 

Com isso, reforçou-se ainda mais o pensamento lógico e a visão de mundo composto por partes separadas. Nesta altura do campeonato, a relação com Deus que era no princípio natural e vivenciada em sua totalidade, e que noutro momento passou a ser limitada pelo intelecto, agora finalmente na visão mecanicista das partes separadas passa a ser totalmente desconsiderada.

SURGIMENTO DA CIÊNCIA

Assim surgiu a Ciência e o Método Científico, voltado para o mundo objetivo ou externo, baseado em postulados que se tornaram Leis Universais. A primeira área do conhecimento que conquistou o status de conhecimento científico ou Ciência foi a Física.

Todas as outras áreas do conhecimento que pleiteavam o status de Ciência procuraram se adequar as Leis da Física, também conhecida como Física Clássica que são “Leis” de uma visão de mundo mecanicista, de um mundo de partes separadas, como a Lei da gravidade, velocidade, aceleração e da causa e efeito, por exemplo.

Estas Leis funcionam muito bem para os fenômenos relativos aos objetos do mundo externo ou objetivo, assim uma maçã sempre será atraída para o centro da terra, uma causa sempre gerará um efeito correspondente e assim por diante.

Um dos problemas importantes que encontramos aqui, no que se refere à Educação, a Psicologia e a Psicomotricidade, é que essas Leis que funcionam tão bem para o mundo externo não funcionam para o mundo interno – mundo psíquico e espiritual.

Essa foi à comprovação feita pela Física Moderna, que começou com as revelações de Einstein e que culminaram com a Física Quântica. As regras que funcionam tão bem aos objetos “grandes” do mundo externo, não funcional para os objetos “muito pequenos” do mundo subatômico.

A psicanálise de Freud buscando a chancela de Ciência acabou por criar relações de causa e efeito, válidas para o mundo externo, vamos dizer assim, também para mundo interno. Desta maneira se uma pessoa está com um problema em sua vida adulta, provavelmente, este problema é um efeito de uma causa na infância. Isso até pode acontecer, mas o problema maior, na minha opinião, é quando transformamos isso em Lei, assim sendo, todo problema na vida adulta é resultado de causas na infância! O mundo interno não funciona como preconiza as leis da Física Clássica, mas poderíamos dizer que funciona mais próximo das características descobertas pela Física Moderna ou Quântica.

CIÊNCIA

Atualmente, a cultura científica prioriza as pesquisas quantitativas em detrimento às pesquisas qualitativas. Isso significa que as pesquisas científicas que podem ser traduzidas em números tem prioridade na cultura acadêmica, das revistas científicas e do mercado financeiro, em relação às pesquisas que tratam de temas que envolvem deduções, reflexões e avaliações subjetivas.

Isso demonstra que, ainda e fortemente, estamos influenciados pela visão de mundo mecanicista, que restringe e sufoca a evolução da Ciência mantendo seu foco no mundo objetivo regido pelas Leis da Física Clássica ainda em nossos dias, e ainda que, a Ciência atual não possui ferramentas adequadas para a avaliação de questões relativas ao mundo interno tanto quanto, possui para o mundo externo.

Isso faz com que a Ciência e o Método Científico demonstrem sua incapacidade atual de tratar de assuntos relativos à psique e ao espírito ou ao mundo interno.

PSICOMOTRICIDADE E CIÊNCIA

Como áreas de conhecimento como a Educação, a Psicologia e a Psicomotricidade envolvem necessariamente o mundo interno, então a questão da relação da Psicomotricidade com a Ciência, e vice-versa, torna-se mais relevante às condições atuais do Método Científico em lidar com questões do mundo interno do que a Psicomotricidade em si. Refere-se mais à competência da Ciência do que a Área de Conhecimento em si.

Como em nossa cultura, principalmente ocidental, a Ciência conquistou um valor de conhecimento verdadeiro, indiscutível, inquestionável, e por vezes, quase divino, há uma força de atração “gravitacional” que atrai a Psicomotricidade à cultura vigente, desejando os admiradores, estudiosos e praticantes da Psicomotricidade de que ela conquiste um status de Ciência.

É bom ressaltar que este processo de desenvolvimento da Psicomotricidade e da Ciência pode ser considerado salutar com ressalvas nas dificuldades da Ciência para que não prejudique o desenvolvimento da Psicomotricidade, principalmente de sua prática efetiva, e desejável eficácia.

CONCLUSÃO

A relação da Psicomotricidade com a Ciência deve ser uma relação de uma Área de Conhecimento e Aplicação com um Método de organização e aplicação (Científico) deste conhecimento, ou seja, uma relação de igual para igual, uma relação horizontal e não de uma relação vertical ou hierárquica onde uma se coloque superior à outra, o que pode gerar por um lado, a limitação da área do conhecimento, e por outro, uma desmotivação à organização e desenvolvimento da área de conhecimento à nível científico.

A psicomotricidade deve ter um autoconhecimento e uma “personalidade segura” tal que não se deixe seduzir e se abater em sua auto-estima diante de um método científico super valorizado culturalmente por vezes com um ego inflado, para cultivar uma relação sadia e profícua tanto para a Psicomotricidade como para a Ciência, tanto para a Ciência como para a Psicomotricidade.

Por fim respondendo a questão inicial: Psicomotricidade é Ciência?

Podemos dizer que sim quando uma porção desta área de conhecimento já foi organizada segundo o método científico. Podemos dizer que não, quando há muito a desvelar sobre a Psicomotricidade e que cabe a Ciência evoluir em seu Método de pesquisa e organização do conhecimento, principalmente no que se refere à exploração do mundo interno.

Mas não considero que a Psicomotricidade é uma área de conhecimento consagradamente considerada como Ciência. Mas isso em hipótese alguma deprecia a Psicomotricidade em si, isso só mostra o ponto de vista da cultura científica atual, que está em desenvolvimento. A própria Psicanálise de Freud é questionada nos meios científicos, sobre seu status como Ciência.

Mais importante que conquistar o status de Ciência é o estudo, a pesquisa e o aprofundamento na organização do conhecimento da Psicomotricidade visando o aprimoramento no lidar com as pessoas que são beneficiadas por este trabalho.

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lino

 Prof. Lino Azevedo Júnior

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