Relação Professor-Aluno

Podemos promover práticas pedagógicas bem diferentes, dependendo da perspectiva que percebemos o mundo em que vivemos.

Estas perspectivas diferentes a que nos referimos, estão associadas à nossa “percepção de mundo”, ou como alguns preferem dizer, “visão de mundo”, “modelos” ou “paradigmas”.

PARA A NOSSA REFLEXÃO, FAREMOS UMA COMPARAÇÃO ENTRE DOIS PARADIGMAS: O MECANICISTA E O SISTÊMICO

No mecanicista percebemos o mundo composto como que percebido por partes separadas, como se fosse uma máquina, composta por peças ou partes.

Verificamos este olhar refletido na Educação quando os envolvidos se veem como partes de uma máquina.

Mas quais seriam as partes dessa máquina?

Podemos destacar algumas como as Políticas Públicas, as ideologias, as instituições de ensino, os profissionais das instituições de ensino, os professores, os alunos, as famílias dos alunos, a sociedade e o planeta.

Também temos as crenças culturais e científicas, o currículo, os métodos de ensino, as rotinas e procedimentos administrativos, o intelecto e o corpo físico, e também, os recursos materiais, equipamentos e financeiros… ufa, quantas partes!!! E tudo isso, só porque citamos somente algumas.

Mas alguém poderia indagar: “mas o que o planeta tem a ver com isso?” Essa é uma pergunta bem pertinente para o pensamento mecanicista, já que uma parte separada não se percebe como conectada ou como parte integrante do Todo.

De qualquer maneira, para a visão mecanicista a máquina da Educação é a soma de todas essas partes, sendo que cada peça se concentra em “fazer a sua parte” e não percebe, ou percebem muito superficialmente, a relação de seu trabalho com as outras peças, correndo-se o risco, aliás, muito comum, de uma peça não trabalhar em sintonia e sinergia com as outras peças.

Diante desta percepção mecanicista de mundo, como é que fica então, a relação professor-aluno?

.RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO NA PERSPECTIVA MECANICISTA

Para refletirmos sobre a Relação Professor-Aluno, vamos focar algumas peças mais diretamente ligadas a esta relação.

Obs.: Percebam que esta linguagem que estamos usando, como peças, partes e máquina, é uma linguagem própria do pensamento mecanicista.

Então, a título de exemplo, para montarmos este quebra-cabeça vamos considerar as seguintes peças: O Professor, o Aluno, o Conteúdo, o “como conduzimos a aula”, o método, o ambiente físico e o objetivo maior da Educação.

Num processo educacional mecanicista o objetivo é inculcar nos alunos os conteúdos pré-estabelecidos.

Isso significa que não importa quem seja o indivíduo-professor e tão pouco o indivíduo-aluno, que o conteúdo deve ser inculcado pelo professor que aparecer, no aluno que aparecer.

Em outras palavras, o professor-modelo-esperado deve inculcar no aluno-modelo-esperado, os conteúdos pré-definidos, tudo perfeitamente encaixado como engrenagens de uma máquina.

O ambiente físico é projetado para atender um determinado “aluno-modelo-esperado” e atender as necessidades do método pré-determinado – no geral algo expositivo, por isso o professor deve ficar lá na frente e os alunos sentados em filas, cada um na sua carteira.

A máquina está quase pronta, só falta para funcionar na prática colocar as peças que estão faltando, a peça-professor e a peça-aluno.

Colocadas as peças que estavam faltando, é só colocar a máquina para funcionar, que nada pode dar errado, certo?

Como diríamos numa gíria atual: “tudo certo, só que não!!!”

Este modelo mecanicista não funciona como previsto, por um simples motivo: As pessoas que estão “encaixadas” neste modelo não são máquinas e não funcionam como máquinas.

Num mundo feito por robôs este modelo funcionaria muito bem, mas na prática, as pessoas envolvidas percebem que Seres Humanos não são robôs e por isso esse modelo não funciona.

Por muito tempo as pessoas se esforçaram para se encaixarem neste modelo e a agir como robôs ou como partes adormecidas e mecânicas de uma máquina.

Com o tempo as pessoas foram acordando devido aos conflitos gerados no processo coercitivo e insano de adaptação do humano à máquina.

As pessoas participantes, desta tentativa de tornar Seres Humanos em Máquinas, desenvolveram grandes neuroses, pessoais e coletivas.

Quando houve a “inclusão escolar de pessoas com necessidades educacionais especiais”*, este modelo se revelou ainda mais claramente como inadequado, ou seja, graças à inclusão de pessoas, diríamos, muito diferentes do “aluno-modelo-esperado”, provocou um chacoalhão na consciência, um verdadeiro tsunami no adormecido e robotizado modelo mecanicista.

*Sugestão de vídeo onde trato do tema “Inclusão Escolar”

Imaginem o espanto de um Professor quando “acorda” e constata que estava “vivendo” como se fosse uma engrenagem de uma máquina, um robô, tratando seus alunos como “robôs” e que se julga por ter se demorado muito nesse modelo, e começa devagar e sutilmente a pensar na importância do amor na Educação?

Começou-se então, a falar em sentimento, emoção e vínculo afetivo com um receio muito grande, já que amor poderia ser considerado como algo “não científico” ou “sentimentalóide”.

É lógico que esta conversa não faz sentido algum para um modelo mecanicista, composto por máquinas! Robôs não têm sentimentos.

Então a relação entre professor e aluno ficou sendo uma relação mecânica, entre duas peças de uma máquina, sendo que, cada um deve exercer o seu papel.

A peça-professor repassa o conteúdo e a peça-aluno apreende esse conteúdo.

Isso feito, a peça-professor cumpre o seu papel e, a peça-aluno tirando uma boa nota na prova, comprova que apreendeu o conteúdo e passa para a próxima etapa da produção em série, como na produção industrial de máquinas.

RELAÇÃO PROFESSOR-ALUNO NA PERSPECTIVA SISTÊMICA

Na visão mecanicista uma parte + uma parte = a duas partes.

Na visão sistêmica, um sistema + um sistema = a um sistema.

Isso porque na visão sistêmica não existe algo separado, mas tudo está interconectado e interdependente.

Um sistema sempre está contextualizado num sistema maior, como o sistema “átomo” está contextualizado no sistema maior “molécula”, ou ainda, como o sistema “coração” está contextualizado no sistema maior, o “sistema circulatório”. O “sistema circulatório” no sistema maior “corpo humano” e assim por diante.

Essa mesma lógica funciona no “sentido” oposto, ou seja, todo sistema contém infinitos sistemas menores, como o sistema planeta contém os sistemas nações. Às nações os estados, os estados às cidades, comunidades, famílias, indivíduos, corpos, moléculas, átomos, psiques, e assim por diante.

Esta percepção aplicada na relação professor-aluno mostra-nos que o sistema-professor mais o sistema-aluno é igual a um sistema maior “sistema-professor-aluno”.

Esta relação é a “soma” de dois sistemas inteiros, onde um influencia e é influenciado pelo outro.

Isso implica, logo de cara, que o sistema-professor, ou em outras palavras, o indivíduo-professor, influencia o seu aluno com todos os seus conteúdos psíquicos, positivos e negativos, conscientemente e inconscientemente.

Os conflitos psíquicos do sistema-professor que ainda não foram resolvidos estarão influenciando e gerando reações em seu aluno.

Muitas reações do aluno, que podem depois serem consideradas pelo professor como indisciplina, podem ter sido geradas pelo próprio professor.

O aluno funciona como um espelho para o professor.

Para o professor que não considera este fenômeno humano, que projeta conflitos inconscientes nos outros,  resta então punir o aluno por indisciplina, mas que na verdade está punindo seu próprio reflexo no espelho: comportamento daquele aluno.

Este drama humano traz consequências para o “sistema-professor”, para o “sistema-aluno” e para a relação “sistema-professor-aluno”.

A boa notícia para o professor, é que cuidar de si-mesmo resolvendo seus conflitos internos, é uma maneira muito importante tanto para si como para o aluno e, para a relação professor-aluno.

Estar consciente desse processo, o que é ignorado no modelo mecanicista, já é um grande passo para o desenvolvimento do professor como pessoa e como profissional, bem como para o aluno e para a relação professor-aluno,

O professor passa a ver em cada aluno, não só uma oportunidade de promover o desenvolvimento do aluno, mas também como cada aluno funciona como um espelho particular que irá facilitar a percepção do próprio professor sobre os seus pontos positivos a serem desenvolvidos ainda mais e sobre os seus pontos negativos que devem ser trabalhados, visando sua transformação e integração a sua Totalidade, ou seja, ao seu sistema-indivíduo.

O objetivo da Educação passa a ser o Desenvolvimento integral do indivíduo, considerando tanto o indivíduo professor como o indivíduo aluno, cada um buscando o objetivo da educação exercendo o seu papel.

O que for pauta para a convivência pedagógica (os chamados conteúdos ou disciplinas da visão mecanicista) deve ser aquilo que interessa aos envolvidos, ao sistema-professor-aluno, e à contribuição com o desenvolvimento integral de ambos.

O professor identificará que aquela pauta escolhida é de interesse do aluno e será estimulada de tal maneira que favorecerá tanto o desenvolvimento de seu aluno, quanto o do próprio professor, gerando prazer, felicidade e realização, onde todos saem ganhando.

CONCLUSÃO

Concluindo, a percepção sistêmica é mais coerente com a Educação de Seres Humanos, pois considera todas as suas dimensões, em outras palavras, o indivíduo em sua totalidade contextualizado em uma Totalidade Maior, e consequentemente, transforma essa percepção numa atividade pedagógica prática, mais condizente com a natureza humana, portanto, mais eficaz e prazerosa.

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2 Comentários

  1. Mirian Pereira Souza

    Costumo dizer a aprendizes (alunos e alunas) que sou mestre e aprendiz ao mesmo tempo, porque sempre estou aprendendo com outras pessoas e inclusive comigo mesma. Nós individualmente também somos uma integração de sistemas, o qual o cérebro faz parte e comanda os outros sistemas do corpo. Mas se um dos sistemas do corpo falhar pode provocar a falência de outros sistemas, e assim podemos passar a não existir mais neste plano nessa dimensão, ou nesse sistema, considerado como organismo Terra por vários cientistas. Sim, cientistas acreditam que a Terra é um organismo composto por sistemas, que por sua vez é composto por órgãos. Fritjof Cafra reproduziu em seu livro A TEIA DA VIDA: UMA NOVA COMPREENSÃO CIENTÍFICA
    DOS SISTEMAS VIVOS um poema de TED PERRY, inspirado no Chefe Seatle Isto sabemos.
    todas as coisas estão ligadas
    como o sangue
    que une uma família…
    Tudo o que acontece com a Terra,
    acontece com os filhos e filhas da Terra.
    O homem não tece a teia da vida;
    ele é apenas um fio.
    Tudo o que faz à teia,
    ele faz a si mesmo.
    Em meu discurso de candidata a vereadora na Câmara Municipal em Campinas, no ano de 2016, discursei sobre essa interdependência e a necessidade de parcerias entre as pessoas por que uma pessoa sozinha não conseguem fazer tudo. A gente sempre precisa de alguém, e não existe independência total. por mais que a pessoa seja autodidata e altas habilidades ou super dotada, ela sempre vai querer saber mais e mais e portanto sempre vai consultar alguém. Por isso sou mestre e aprendiz, e digo a estudantes que também são mestres, porque professores podem aprender com eles algo que não sabe ainda, já que há uma infinidade de temas, assuntos e informações que fica impossível a gente saber tudo, mesmo que sejamos especialistas no assunto. Uma bióloga por exemplo, sempre terá o que aprender pois a ciência avança a cada dia, novas descobertas surgem e substituem teorias já aceitas. A constância é a mudança.

  2. Bianca

    Muito bom, concordo plenamente que cada ser é diferente com gostos e maneira de ver as coisas em diferentes dimensões, devemos sempre lembrar disso.

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